Mauricio Alvarenga – Xixo

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Defina skate

Quando comecei a andar de skate em 1978, era tudo uma brincadeira, meu primeiro skate nem era um skate e sim um patinete Bandeirantes que eu tirei o guidão para virar um skate...tudo bem rustico, rodas de plástico e bilhas no lugar dos rolamentos, não dava pra levar nada a sério naquela época, era tudo uma brincadeira de criança literalmente. Porém com a evolução dos materiais, as peças começaram a ter uma qualidade um pouco melhor...nada ainda comparado com os gringos, mas o uretano chegou pra mudar o esporte e foi no começo da década de 80 que tudo começou a fazer sentido. O skate era tudo na minha vida, uma inspiração, uma forma de superar obstáculos, uma ferramenta de fazer amigos e que trazia um sentimento de conquista quando uma manobra era aprendida depois de tanto esforço. E esse sentimento é muito gratificante ate hoje, pois sinto que fiz parte de uma geração que mudou o skate, claro que todos que vieram antes de mim, que começaram la atrás tem todo o mérito e meu respeito pelo pioneirismo, mas o skate moderno da forma que é praticado hoje, começou ali no começo da década de 90, com flips, corrimãos, muretas, gaps, etc, que são a base do skate moderno...So quem anda de skate e tem tesão por tudo que consegue fazer em cima dele, consegue entender o que ele é, o que ele representa para cada um. Skate foi uma forma que minha geração encontrou de se expressar, influenciou a moda, a musica e tudo isso é reciproco, além de toda uma geração que acompanhava o skate, nas pistas, nas revistas e todo o seu movimento. Lembro de algumas passagens interessantes dessa influencia...um dia decidimos pintar os cabelos, eu, Alexandre Ribeiro, Daniel trigo...uma época que ninguém fazia isso, chegamos em São Caetano pra andar e todo mundo olhando pra gente sem entender, na semana seguinte diversos moleques de cabelo pintado. A gente se expressava como queria, não tinha limite, não ligávamos pra opinião de ninguém e ninguém nos julgava, ainda mais sem mídias sociais. Entao skate pra mim é uma mistura disso tudo

 

Campeonatos de skate

 Era a parte mas divertida junto com as demos. Naquela época, final dos anos 80 e começo dos anos 90, a gente não ligava muito para a competição em si, estamos la pra nos divertir com nossos amigos, pois as viagens eram sempre muito legais. Poucos campeonatos tinham uma estrutura digna de uma competição profissional, rampas de madeira quase improvisadas e nenhuma estrutura para os atletas, tudo muito diferente dos campeonatos de hoje. Premiação quase nunca condizia com o tamanho do campeonato, pois de novo, estávamos todo ali, nos skatistas e marcas organizadoras, brigando contra uma economia e um mercado muito muito difícil. Ninguem estava ali por causa do dinheiro, so pensávamos em continuar fazendo o que gostávamos, sempre entre amigos e divulgando o esporte. Olhando pra trás hoje, tenho certeza que todo o perrengue que passamos por tantos anos foram necessários para a evolução do esporte e tudo que ele atingiu ate hoje.

 

Porque skate

Como falei, era a forma de nos expressar, de nos divertir, de fazer amizade, de viajar e de nos comunicar com um mundo que achamos que não pertencíamos.

 

Skate é estilo de vida?

Com certeza, sempre foi, acho que quem anda de skate sente que é diferente dos seus amigos que não andam, pois é não é somente um esporte, é o jeito que você se comunica, o jeito que vc se veste, as musicas que você ouve, tudo faz parte do lifestyle do skate, que eu acredito que nenhum outro esporte tenha

 

Melhor coisa que skate te trouxe? E a pior?

As melhores coisas, pois são varias...as viagens, as amizades, as musicas que eu conheci, as conquistas (não so a vitória em um campeonato, mas o acerto de uma manobra no dia a dia), o sentimento de bem estar com o vento batendo na cara, o reconhecimento do mundo do skate, tudo isso é muito gratificante. Mas como todas as coisas, o skate também tem um lado ruim. O esporte de alta performance cobra um preço alto do seu corpo, ainda mais um com tanto impacto como o skate. Foram mais de 10 fraturas, cirurgias nos dois joelhos, pinos, fisioterapias intermináveis...tudo para curar o corpo e voltar a fazer o que a gente gosta. Além disso por se tratar de um esporte, no inicio, marginalizado, sempre havia um certo preconceito com o skatista, visto antigamente como vagabundo ou maconheiro...o que na realidade não condizia com a realidade.

 

O que fazer pelo skate?

Acho que o skate atingiu um patamar que ele anda sozinho. Na década de 80/90, o skate sofria com falta de apoio, falta de dinheiro, falta de patrocínios, tudo era muito difícil. Com a massificação do esporte, marcas que antes inimagináveis como Nike, Adidas, entraram de vez no esporte e com elas os super eventos, como XGames, Street League e agora os Jogos Olimpicos, com isso o dinheiro e o incentivo apareceram. Antes tínhamos uma UBS (Uniao Brasileira de Skate), onde o pai de um atleta era o presidente para tentar manter a chama do esporte viva, mesmo com toda a adversidade do momento, já hoje temos a CBSK super estruturada levando atletas para as Olimpiadas...quem poderia imaginar que todo o perrengue que passamos traria frutos tão bons para o esporte.

 

Uma viagem que skate te trouxe?

Acho que a mais marcante, foram as viagens para o Mundial da Alemanha e França. Todos naquela época sonhavam em disputar esses eventos. Muito antes de conquistarmos os títulos com Digo, Bob e Ferrugem...a equipe brasileira estava la sofrendo com o preconceito dos gringos e do pouco caso dos juízes ao avaliarem nossas voltas. Tudo isso porque nos viam vindos de um País onde quase todas as marcas deles eram pirateadas...como assim Daniel Trigo era patrocinado pela Sims??? Sims era uma marca americana e tudo isso pesava contra as delegações brasileiras que chegavam na Europa para competir. Mas de novo, estávamos la realizando um sonho, competindo de igual pra igual contra os caras que víamos nos vídeos de skate a tantos anos. Com certeza as melhores trips de skate foram essas

 

Familia skateboard

Cara, engraçado falar em família skateboard, pois acho que hoje e sempre houveram famílias skateboard diferentes. Eram as tribos da época, Ibiraboys, Moemagem, ZN, São Caetano...acho que eram famílias distintas que se cruzavam nos campeonatos e demos, foram nelas que nossas amizades foram fundadas e perdurtam ate hoje. Claro que como toda a família, há discórdias, pensamentos e pontos de vista diferentes. Por exemplo, conheço muitos skatistas que são contra o skate nas Olimpiadas, os caras tem as razoes deles, eu to achando legal pra caramba ter o skate nas Olimpiadas, uma pena eu não ter podido participar de um evento desse em Barcelona 92. Mas meus grandes amigos hoje, amigos de mais de 30 anos, que eu considero como irmãos, eu fiz andando de skate e sei que posso contar com eles pro resto da vida.

 

Skate ontem, hoje e amanhã

Três fases distintas da vida, mas sempre ligadas ao skate. O ontem traz toda a memoria do esporte, campeonatos, demos, amizade, perrengues e conquistas. Hoje, andando de sempre sempre que posso, levando meus filhos Gustavo e Felipe comigo, passando um pouco do amor que eu tenho pelo esporte pra ele, tentando ensinar, auxiliando e incentivando. Amanhã, espero continuar andando de skate por muito tempo ainda. Três fase da vida onde o skate sempre teve seu espaço, umas com muita e outras com menos intensidade, mas sempre com o vento no rosto.

 


Mauricio Alvarenga – Xixo 

Tempo de Skate – 40 anos

Patrocínio e Model: Cush

Capa da revista Tribo n*2

Fotos diversas nas revistas: Overall, Skatin’, Yeah, Tribo, Livro a Onda Dura, SkateBoarding (inglesa)

Campeão de 9 etapas do Campeonato Brasileiro Profissional entre 1989 e 1992